quinta-feira, 5 de maio de 2016

Quanto vale a vida


"...Quanto vale a vida perdida e sem razão?
Num beco sem saída, quanto vale a vida?
São segredos que a gente não conta
são contas que a gente não faz...
São segredos que a gente não conta
e faz de conta que não quer nem saber...
Nas garras da águia
Nas asas da pomba
Em poucas palavras
Num silêncio total
No olho do furacão, na ilha da fantasia,
Quanto vale a vida?"

Tenho escrito mentalmente sobre isso todas as noites depois de segunda-feira. Nesses dias um sopro de vida tem me acompanhado vem por outra e um vendaval de morte tem me derrubado, me devorado como um leão com fome. Sei que deveria "ficar com a resposta das crianças, é a vida, é bonita e é bonita". Mas minha certeza é cega. Sou uma menina cheia de incertezas e digo menina porque uma mulher talvez devesse ter os pés mais firmes. Isso me oprime e às vezes me alivia. Entretanto, nesses dias de frio e sol, feito eu, não ter os pés firmes tem me oprimido. Aquele velho sentimento de vazio, agora tão velho quanto um bebê. Minha mãe conta que fui uma criancinha que pouco chorava. Se precisasse fazer algo em casa, o ofício do dia a dia das mães, era apenas me deixar no berço, apenas com a porta entreaberta. Ela conta que vez por outra ia dar uma olhadela pra ver se estava tudo bem comigo e então eu dava um suspiro fundo e ria e esticava os braços e ela rapidamente desaparecia da porta de coração partido. Agora, não por isso que nem me lembro, mas por tantas outras coisas estou eu aqui de coração partido e ainda com os braços esticados, porém com uma esperança quase apagada e sem sorriso nenhum. Hoje quero morrer. Amanhã talvez não queira, mas hoje é hoje e apenas hoje e honestamente é esse o sentimento que me me abraça.
Receio que isso esteja ficando longo demais, e me desculpo já por isso, é que havia esquecido da fluidez do momento da escrita e como nesses momentos o meu pensamento se descola e decola. 
Escrever causa-me excitação e sinto até certa potência nisso.
E então me lembro de certa pessoa amada me dizendo: - Se você pensa que vai passar os dias escrevendo enquanto eu trabalho para sustentar a casa está muito enganada. A vida é dura. Tem aluguel, água e luz e... - Naqueles tempos havia conseguido algumas conquistas pequenas no trabalho, mas estava tão deprimida que abracei o amor. Ou carente, como você diz.
E a vida tornou-se tão dura e nenhum aluguel ou luz ou água foi pago com o dinheiro dele. Fiz empréstimos, pedi, trabalhei como tola, ultrapassando as horas do dia e da noite. Fui diminuída, tanto esforço, tanta gritaria, tanto "vai dar certo, sonhei com uma vida com você, deixei projetos por você, esperei você por dois anos", até escutar "nunca mais me diga que vai dar certo, a vida não é poesia, você não vale, vai me levar pro abismo, vai levar um tiro, temos que sair daqui e hoje, não sabe fazer uma mala". 
Até que cheguei numa terra estranha em frente ao mar. Eu gostava do mar, sonhava com o mar, o mar me acalmava, até chegar a esse ponto de fome, privação, sono, dores desrespeitadas, não poder sair de um quarto, ver a cocaína e o álcool consumindo alguém, ver a pessoa dormindo e tremendo, pulando no colchão, sangrando, tendo medo de qualquer ligação, tendo medo de qualquer barulho na porta, vivendo uma violência absurda, e aceitando ouvir absurdos. Hoje é disso que o mar me lembra.
Não percebi que permaneci de braços estendidos e vazios. Mas, na verdade, sei lá se é por isso que quero morrer. Sempre quis, desde que me lembro entender certas coisas. meu pai batendo no meu irmão, forçando-o a passar madrugadas refazendo três vezes a lição, querendo que sua letra fosse melhor e forçando-o a escrever textos e textos e cadernos de caligrafia, além da tabuada, dos tapas infernais. Eu fui pra escola, e aos 6 quis me jogar da escada, arquitetei sozinha o plano.
mas acho que minha vida não foi tão ruim, eu me vejo pintando um quadro obscuro e sinto medo de estar mentindo pra mim mesma como uma desculpa pra quem quer se pendurar na viga que me parece ser a mais forte daqui, a da lavanderia, se pendurar pelo pescoço.
Mas sabe, durante uma das campanhas contra o suicídio, li uma estatística bem feroz, de cada dez tentativas, uma dá certo. Fiquei assustada, não porque uma dá certo, mas porque nove dão errado e viver com a sequela disso, ser ainda mais estigmatizada, me parece uma vida bem pior.
E voltei pra casa de mãos abanando e rabinho ente as pernas, não tinha nem roupa, nem dignidade, nem coragem. Tudo isso depois de uma ligação para a minha mãe, feita de um celular arremessado na parede, catando os pedaços que restaram no lixo. Eu me sentia o próprio lixo.
Mas, minha mão me abraçou.Sei que coisas ruins devem nos ensinar, mas alguns tipos de sofrimento pra mim não são mais do que sofrimentos.
Hoje quero morrer, mas não estou no sofá. É, sei que a vida não é perfeita, mas existem tempos em que ela me é insuportável Sempre e sempre e sempre acreditei que o amor seria a cura de todos os males, a alavanca, o aconchego. Até me lembrei de uma frase repetida no facebook: "um dia você vai encontrar alguém que te abrace e vai sentir que todos os seus pedaços se juntaram", ou algo assim. Frase mais mentirosa. Ninguém é capaz de juntar os seus pedaços e sinto que não deu tempo de juntar todos os meus, e que alguns ficaram pra traz, nem pra varrer pra perto e pegar com uma pá, pra então fazer a obra da colagem. `, acho que foi Cora Coralina que escreveu que a vida é uma colcha de retalhos. Mas, Rebeca, não encontro agulha e nem a linha. estou desforme.
E nassim, acreditei novamente no amor, e uma mágoa gigantesca hoje me corrói. Sinto-me muda quando lembro do que aconteceu. Não pude dizer, não pude dizer, não pude dizer. Estou entalada de palavras e também já escrevi inúmeras cartas por pensamento para esse senhor que me perturbou de tal maneira com " minha menina, minha eterna princesa, vamos ver uma casa, não um apartamento, vamos devagar, ajeitando as coisas, sempre vou te amar, não sou igual aos outros, e um estúpido, devido o seu diagnóstico estou eliminando você da minha vida. A luz apagou e eu não vi mais nada. Não posso dizer que não sofro. Aquela esperança bandida me fez acreditar.
Agora está anoitecendo, mas acredite que tenho me esforçado, como tenho me esforçado, mas sinto falta desse sopro de vida. estou saindo do sofá, brincando com a cachorra, fazendo exercícios físicos, limpando a casa, querendo remendar a parede da sala, comecei a trabalhar no logo das bolsas, limpo a casa (a maior parte das vezes não lavo a louça, confesso, e nem cozinho, mas outras consigo), prometi para minha mãe que iria ajudá-la na organização dos seus documentos três dias por semana e... sei lá, minha cabeça ainda diz se esforce um pouco mais, faça melhor, como diz a música da Alanis " você é amado se você for perfeito"...
E sabe, me veio agora que talvez o sofá seja meu berço. Não o da preguiça, mas aquele de quando eu era bebê. mas talvez eu tenha desistido de estender os braços, talvez eu ainda esteja de braços estendidos. Mas vou deixar algo para segunda-feira.
Perdão pela quantidade de palavras.

Abraços


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